Cícero Jorge da Silva, 39 anos. Cabra nascido e criado no Sertão do Moxotó, nos sítios (comunidade) de Baixas, distrito do município de Inajá, Pernambuco. Cícero está a pouco mais de 300 km da capital do seu estado, Recife, mas nunca viu o mar. “Quase nunca saio daqui, a gente vive aqui, cuida das cabras, caça um bichinho pra cumê”.

Cícero é um profundo conhecedor do sertão e da história do cangaço. Admirador de Lampião, a quem faz referências de “defensor do povo sertanejo” com o máximo do seu respeito. Sabe histórias, conhece hábitos e trajetos usados pelo Rei do Cangaço e seu bando. Memórias passadas de geração para geração dentro da comunidade de Cícero.

Certeiro nas palavras, me contou muito sobre o modelo de vida de seu povo. Sua forma de ver as coisas, assim como de encarar o dia a dia me lembrou muito dos pensamentos filosóficos de Friedrich Nietzsche. “Na vida, o cabra precisa passar pelo sofrimento antes de ter as coisas. Precisa ser forte e enfrentar, se é tudo muito fácil, aí o cabra se perde”, me ensinava Cícero enquanto caminhavamos pela caatinga.

Nietzsche, em um de seus muitos ensaios, disse que para se tornar quem realmente é, o homem precisa passar pelo sofrimento. Só ele leva o homem a evolução. Nietzsche e Cícero concordam que o homem deve encarar a vida de frente e não usar de fugas para se elevar e crescer. “Rapaz, eu “num bebo não”. O cabra quando bebe conversa demais, fica violento, se perde todo, fala mentira, até acredita que é rico. Eu não tenho nada contra quem bebe, mas pra mim já não serve não”, opinou o sertanejo.

Nietzsche, por sua vez, costumava dizer que o álcool era o veneno das mentes e espíritos elevados. O homem evoluído. Segundo o filósofo alemão, apenas água bastava.

Falamos sobre tudo, muita coisa. Magro e esguio, Cícero me ensinava a como caminhar na areia. ” Tem que andar leve, não pode usar o peso do corpo não. O cabra não aguenta muito tempo de andar assim que nem o senhor tá andando”. Pensei em fazer um intensivo, andar ali na caatinga sendo leve não é fácil, ainda mais pra um cara de 105 quilos como eu.

Na subida entre os rochedos ele me orientava fazendo cálculos . “Não pode jogar todo o peso numa perna só, divide o corpo, metade em cada perna. No seu caso uns 60kg pra cada uma tá bom “. 😐😒

Um dos momentos mais legais, foi quando Cícero encostou num rochedo e começou a me explicar a mensagem que Deus tinha deixado naquela obra. (Ver vídeo do post). “Ele deixou seus dedos aqui pra lembrar a gente que tem que trabalhar pesado”.

O tempo que passei com Cícero hoje foi muito bom. Conheci o caminho de Lampião e seu bando, percorri uma parte importante da história do cangaço, da história do Nordeste e do Brasil. Aqui, em Baixas, Lampião passou pela última vez, em Pernambuco, antes de ser morto, no dia 28 de julho de 1939, em uma emboscada numa gruta as margens do Rio São Francisco, no município de Piranhas, já no estado de Alagoas, a pouco mais de 150 km do vilarejo onde Cícero mora.

Amanheci caminhando ao lado de um grande cidadão brasileiro que vê a felicidade no dia a dia, caçando, colhendo , criando suas cabras e como ele me disse “indo até a feira na cidade, quando tem um dinheirinho, para comprar uma coisinha de cumê”. Cícero é rico, muito mais que qualquer milionário. Sua riqueza está na sabedoria , maior que muito doutor que eu conheço, na sua fé, muito mais genuína é sincera que a maioria dos líderes religiosos e no seu caráter que deveria servir de exemplo aos nossos governantes e ao nosso povo.

A filosofia e a amizade de Cícero foi um grande presente que recebi hoje, do sertão do Moxotó, aqui em Pernambuco.