De volta a Manari, no sertão do Moxotó, no estado de Pernambuco, comecei a conhecer novos Sítios (comunidades rurais) da região. Após passar uma semana na comunidade das Baixas, tenho me dedicado a rodar propriedades que foram castigadas pela seca de sete anos e que não contam com água no subsolo (aqüífero do Jatobá) para perfuração de poços.

Minha primeira parada foi no Sítio de Lajeiro Vermelho, a pouco mais de seis quilômetros do centro de Manari. La, conheci a dona Benedita, 58 anos, mãe de 14 filhos, sete ainda vivos.

Enquanto preparava o almoço, abóbora com carne seca, ela me contou um pouco da vida nos sete anos de estiagem que abateram a sua região. A estiagem devastou a agricultura local. Animais foram perdidos, morreram de sede e fome, o plantio de feijão foi comprometido, as dificuldades eram muitas. “Não me lembro, em 58 anos de vida, de uma seca tão terrível. A gente ficava um ano, dois anos sem “chuver”, agora desse jeito meu Deus do céu, nunca. Foi muito difícil, muito mesmo”, contou de demonstrando emoção ao recordar.

O segredo para superar o longo período sem chuvas, dona Benedita definiu em uma palavra: “União”. Uma história bonita, um exemplo para todo o brasileiro. “A seca é pesada meu filho, você não imagina o que é. Só que graças a Deus, aqui todos são unidos. Basta um ficar doente, para todo mundo se unir. Na seca foi assim. Aqui a gente vive bem e em paz, apesar de tudo. Não saio daqui não”, contou a matriarca.

Benedita é viúva há 14 anos. Durante a seca, viu a renda da família minguar. “Tinha água pra comprar, alimento, os netos, os filhos”, explicou. Sem poder plantar, pouco dinheiro as coisas se tornavam cada vez mais delicadas conforme os anos viravam e a chuva não chegava.

Uma das fontes de renda dos moradores é a venda de animais, cabras e ovelhas, além do feijão. Com a seca, o solo empobreceu, os animais começaram a morrer de fome. “E só Deus sabia quando iria chover, o que mais a gente poderia fazer”, lembrou.

A aposentadoria manteve a família, e até mesmo vizinhos ao longo dos anos. “Se eu tiver uma única caneca de água e alguém chegar em minha casa com sede, eu divido a caneca”, disse.

E com esse espírito de amor ao próximo, união e muita resiliência, as cerca de dez famílias do vilarejo de Dona Benedita sobreviveram aos sete anos de seca. “Quando choveu meu filho, foi uma alegria tão grande, tão grande. Se vai chover mais esse ano é ano que vem ? Deus é que sabe”, concluiu .