Além do meu umbigo

Porque viver é muito mais que existir

Autor: Neto Rodrigues (Página 1 de 2)

A saga de amor e união do sertanejo em sete anos de seca

De volta a Manari, no sertão do Moxotó, no estado de Pernambuco, comecei a conhecer novos Sítios (comunidades rurais) da região. Após passar uma semana na comunidade das Baixas, tenho me dedicado a rodar propriedades que foram castigadas pela seca de sete anos e que não contam com água no subsolo (aqüífero do Jatobá) para perfuração de poços.

Minha primeira parada foi no Sítio de Lajeiro Vermelho, a pouco mais de seis quilômetros do centro de Manari. La, conheci a dona Benedita, 58 anos, mãe de 14 filhos, sete ainda vivos.

Enquanto preparava o almoço, abóbora com carne seca, ela me contou um pouco da vida nos sete anos de estiagem que abateram a sua região. A estiagem devastou a agricultura local. Animais foram perdidos, morreram de sede e fome, o plantio de feijão foi comprometido, as dificuldades eram muitas. “Não me lembro, em 58 anos de vida, de uma seca tão terrível. A gente ficava um ano, dois anos sem “chuver”, agora desse jeito meu Deus do céu, nunca. Foi muito difícil, muito mesmo”, contou de demonstrando emoção ao recordar.

O segredo para superar o longo período sem chuvas, dona Benedita definiu em uma palavra: “União”. Uma história bonita, um exemplo para todo o brasileiro. “A seca é pesada meu filho, você não imagina o que é. Só que graças a Deus, aqui todos são unidos. Basta um ficar doente, para todo mundo se unir. Na seca foi assim. Aqui a gente vive bem e em paz, apesar de tudo. Não saio daqui não”, contou a matriarca.

Benedita é viúva há 14 anos. Durante a seca, viu a renda da família minguar. “Tinha água pra comprar, alimento, os netos, os filhos”, explicou. Sem poder plantar, pouco dinheiro as coisas se tornavam cada vez mais delicadas conforme os anos viravam e a chuva não chegava.

Uma das fontes de renda dos moradores é a venda de animais, cabras e ovelhas, além do feijão. Com a seca, o solo empobreceu, os animais começaram a morrer de fome. “E só Deus sabia quando iria chover, o que mais a gente poderia fazer”, lembrou.

A aposentadoria manteve a família, e até mesmo vizinhos ao longo dos anos. “Se eu tiver uma única caneca de água e alguém chegar em minha casa com sede, eu divido a caneca”, disse.

E com esse espírito de amor ao próximo, união e muita resiliência, as cerca de dez famílias do vilarejo de Dona Benedita sobreviveram aos sete anos de seca. “Quando choveu meu filho, foi uma alegria tão grande, tão grande. Se vai chover mais esse ano é ano que vem ? Deus é que sabe”, concluiu .

 

 

Água muda a vida do sertão, mas quem de fato quer que ela mude ?

Quem vê um alface verde como esse e não pergunta a origem, certamente acreditaria que ele foi produzido em alguma propriedade da região Sul oi Sudeste do Brasil. Na verdade foi produzido bem longe do Sul e do Sudeste.

Todas as frutas e hortaliças, assim como os grãos vendidos nas feiras livres da região do sertão do Moxotó são produzidas aqui mesmo. Isso, nada é comprado de fora. Tudo, absolutamente tudo vem destas terras.

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No perrengue da estrada, aprendi uma grande lição de solidariedade

 

Hoje passei um perrengue na estrada, no retorno de Arcoverde. Os filtros de combustível da Van que estávamos entupiram devido ao diesel de baixa qualidade abastecido na bomba. Um trajeto que não dura mais que duas horas, levou cinco para ser vencido.

Tempo suficiente para conhecer a história do Cássio Moreira, 23 anos, que há quatro meses trabalha como auxiliar na Van em que estava. Ele cobra as passagens, acomoda passageiros, dirige quando preciso. É o braço direito do motorista.

Cassio trabalhava com transporte de água até o início deste ano. Dirigia os caminhões pipa que levam água as regiões de seca extrema. Me emocionei com o que ele me contou. “A gente leva água que o governo federal distribui. Só que quando a água sobra, e sempre sobrava, o governo não queria que desse a ninguém, mandavam devolver no poço”, disse.

O rapaz me contou que não conseguia cumprir a ordem. “Como você vai deixar gente passa do sede? Não dá não. Se olhava aquela gente pedindo um pouco de água, eu já parava o caminhão e dava água a eles”, revelou.

Segundo ele, a água que o governo distribuía nas cisternas de famílias cadastradas não durava muito. “Era uma “carrada” de água pra um mês inteiro. Só que você enchia uma cisterna para atender várias famílias, 40, 50 pessoas precisando daquela água. Não durava três dias já estavam passando sede”, lamentou.

Cassio disse que conviver com essa realidade “machuca por demais o cabra”. Para ele, ter trabalhado nessa empreitada de levar água aos que tem sede ainda sim foi um privilégio. “Rapaz, você parava aquele caminhão com a sobra da água, dava as pessoas. Vinha a pessoa com R$ 5 nas mãos, não aceitava não. Era o que tinha que fazer”, concluiu.

Tempo precioso esse na Van. Que lição !
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Euclides da Cunha estava certo

Euclides da Cunha tinha toda razão. O nordestino é antes de tudo um forte. Completo quinze dias no sertão esta semana. Vivi muita coisa, vi muito mais, aprendi o que levaria anos para aprender.

O sertanejo é um herói invisível aos olhos do Brasil. Resiliente e aguerrido, vence os elementos dia após dia. É orgulhoso de suas raízes e culturas, de sua força e sua bravura. Quem me dera ter uma pitada dessa coragem e dessa fibra. Quantas lágrimas teria evitado.

  • Herói brasileiro, o povo sertanejo pede passagem, segue viagem, sua sina e seu destino. Não abaixa a cabeça e não se dá por vencido. A ele, toda a honra e respeito. Lhes é de direito.

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“Teve um tempo que era tão difícil, que só pensava em morrer”

O título pode ser até forte, mas a história que contarei a seguir não é de desgraça. Ela é forte, cheia de reviravoltas e o final… Bom você chega lá. Também começo a contar a história de Joana D’arc Henzel , seu marido, o Ronaldo e ONG, a Pão é Vida.

Retomando

Alcides José Nascimento nasceu em 23 de junho de 1996. Criado na comunidade de Baixas, sertão do Moxotó, no estado de Pernambuco, esse pernambucano, sertanejo orgulhoso de 21 anos cresceu na região que já foi considerada a mais miserável do país. Há duas décadas, na comunidade de Baixas, água e alimentos eram muito escassos. Os índices de mortalidade infantil eram altíssimos, Alcides já era um sobrevivente ao completar um ano de vida.

Dá infância difícil, o jovem lembra que a água era a maior dificuldade.

“Alguma coisinha sempre tinha pra comer. Lembro que quando a mãe ia lavar roupa na bica, levava a gente, açúcar e farinha pra misturar na água e a gente comer. Ou levava rapadura, misturava na água e dava pra gente beber”, recordou.

O sentimento de “esquecimento” de sua comunidade é outra lembrança de infância. “Os políticos não olhavam pra cá não. Fizeram um poço, botaram um cabra aí pra cuidar da água, ele recebia do governo pra ligar a bomba, pessoal ia lá na casa dele pedir pra ligar, ele dizia que ia mandar água e não mandava. Ninguém nunca fez nada. As estradas “num tem”, na escola professor chegava, recolhia os alunos umas oito da manhã, nove horas largava solto pra jogar bola, que menino não gosta de bola? E ficava lá ouvindo música. Era assim a vida, tudo difícil, muito sofrido”.

Das boas lembranças, caçar com os amigos tirou um largo sorriso do seu rosto na hora de contar. “Carne é sempre pouca né, então a gente saía, eu mais um amigo, para caçar. Caçava Cagambá, muito”.

Como o cagambá é um gambá, pedi a ele sobre como preparava a carne, se tinha gosto ruim. “A carne do cagambá tem aquele gosto do cheiro que ele tem né? A gente matava, fazia uma fogueira ali mesmo, queimava os pelos, limpava bem. Só que mesmo que você limpe, tire a bolsinha onde fica o “xixi” que ele espirra, ainda fica cheiro e gosto. A gente cozinha bem, tem uns que não gostam, mas dá pra “cumê sim” “, explicou o jovem.

 

Só que a vida sem perspectiva, no lugar que, como chegaram a dizer, Deus havia esquecido, começou a afundar para Alcides. “Com 12 anos eu já bebia cachaça todo dia e fumava maconha. Eu bebia e fumava, um pouco para me divertir, um pouco por desgosto. Sabe como é né. A região é pequena, mas sempre tem um bar. Daí o cabra bebe porque tá feliz, porque tá triste, porque quer esquecer. Bebe, bebe todo dia. Maconha até tinha pouco, eu bebia mesmo, bebia cachaça direto”, confidenciou.

Pausa

Pedi a ele se poderia seguir relatando sua história daqui para frente, ele disse que tudo bem. Que já era passado.

Seguimos

Não demorou muito e Alcides foi aliciado por alguns homens que ofereciam trabalho em roças que ficavam em meio aos canyons da região. Ainda menino, pré adolescente, muito novo, aceitou o convite para ir trabalhar no cabo da enxada. “Era plantação de maconha. Tinha que plantar os pés”, revelou.

Entre as montanhas que cercam a região de Baixas, ele trabalhou no plantio da erva por um tempo. É um sistema combatido pelas forças de segurança, mas como a região é de difícil acesso, em meio às cordilheiras, as empreitadas contra traficantes são realmente difíceis.

Alcides sobreviveu a mortalidade infantil, sobreviveu ao vício da cachaça aos 12 anos de idade, e sobreviveu ao perigoso trabalho nas roças de Cannabis. As regras eram cruéis, em especial entre os empregados. ” Se chegasse o dono e o cabra quisesse falar com ele, tinha que ser ali, na frente de todo mundo. Se fosse falar escondido, quando voltasse já davam um jeito nele. Todo mundo desconfiado, uns já achavam que era plano pra matar os outros, aí já viu né”.

Outro risco era o de ataques de bandos de fora, que podiam chegar a qualquer momento para roubar a produção.

” Entravam matando todo mundo né”.

Neste tempo, Alcides perdeu seu melhor amigo, vítima de uma depressão que o levou ao suicídio. ” A gente trabalhou junto lá na roça de maconha. Era falante, um cabra bom. Aí começou a ficar quieto, desiludido, parou de falar. Morreu de se enforcar”. Neste momento vi a tristeza nos olhos de Alcides, que baixou a cabeça , talvez lembrando do amigo.

O garoto que já estava desiludido da vida, ficou ainda mais desamparado. Pesou o fardo de todas as coisas que havia vivido, feito. “Chegou um tempo que eu só queria morrer, só queria acabar com aquela vida”.

Uma palavra, um conforto e uma oportunidade. Foi o que salvou Alcides .

Baixas é uma região pouco assistida e amparada pelo poder público. Os investimentos da União, por exemplo, jamais chegaram aqui. Porém, a iniciativa de pessoas comprometidas em ajudar a comunidade , aos poucos começou a mudar essa realidade.

Há dez anos, Joana e Ronaldo decidiram vir para o nordeste, em especial o sertão, e começar um trabalho com a comunidade de Baixas. Ronaldo é empresário e também teólogo e pastor da Igreja Batista. Inicialmente fixaram residência em Santa Cruz do Capibaribe, cidade próxima, e lá assumiram a congregação Batista local. Porém, Baixas parecia mesmo ser sua morada e destino, como mesmo me contaram.

Após um tempo trabalhando com a comunidade, vindo de tempos em tempos, decidiram que morariam lá. Com os recursos que tinham, fruto da venda de sua casa no município de Pelotas, no Rio Grande do Sul, compraram um “pedaço de chão” em Baixas armaram uma barraca de lona preta e começaram o seu sonho de, pela ONG Pão é Vida, de trabalhar pela comunidade que um dia disseram ter sido esquecida por tudo e todos.

Enquanto lutavam para reconstruir a vida no lugar que muitos diziam “ter sido esquecido por Deus”, começaram a trabalhar pela comunidade. Além do foco em captar recursos e donativos que viabilizassem água e alimentos as famílias, passaram a promover um trabalho social.

Joana é assistente social, tem lida com famílias em estado de vulnerabilidade social. Ergueram aqui diversas ações. Perfuração de poços, aulas de artesanato, atendimento a comunidade, coleta de alimentos, donativos. Um trabalho de base.

Com o tempo, conseguiram uma grande empresa para apoiar a causa. Construíram um ambulatório odontológico equipado, uma sala de aula para educação de jovens e adultos, alfabetização de crianças, jovens e adultos, enfim. Foram lutando dia, após dia, e colhendo os frutos.

Em meio a todo esse trabalho, Ronaldo soube, por moradores da história de Alcides. “Não era incomum a notícia de gente cometendo suicídio aqui. O desespero era tamanho, que eles alguns iam para o meio da caatinga e se enforcavam. Me avisaram que havia um garoto falando que faria isso”, recordou.

Como pastor, Ronaldo procurou conversar com o garoto. O convidou para ir a um culto, no domingo. Eles também construíram uma igreja na localidade, e passou a se relacionar com Alcides. “Lembro que ele veio e me deu uma “biublia”. Eu peguei ela e comecei a ler né. Aí fui aprendendo, entendendo”, disse Alcides.

Ronaldo lembra que quando começou a se aproximar mais de Alcides, o jovem foi sincero. “Ele me disse que havia feito coisas ruins, que não era uma pessoa boa. Nós acolhemos ele, passamos a fazer um trabalho muito próximo dele”.

Voto de confiança

Numa tarde de trabalho em seu pedaço de terra, Ronaldo lembra que Alcides chegou e foi direto ao assunto . “Eu preciso de um trabalho, qualquer coisa. O que o senhor tiver eu faço”. Ronaldo precisava decidir se dava ou não a oportunidade. Precisava de alguém de confiança, precisava de um apoio, pois o trabalho era e é duro, pesado. “Rapaz, eu pensei, pensei. Decidi dar a oportunidade. Disse a ele: Não estou lhe dando só um trabalho, é uma oportunidade”, frizou.

Alcides passou a trabalhar e com o tempo mostrou que não só era digno da oportunidade, mas também de confiança. As coisas começaram a mudar. “Foi então que depois de um tempo ele me disse que iria casar. Perguntei a ele se já estava preparado para ter um pedaço de chão. Ele disse que queria comprar, mas o dinheiro não dava. Disse a ele: então guarda, economiza”.

Porém , com muitos parentes , seu dinheiro era consumido com facilidade quando chegava. “Ele me disse que não conseguia guardar nada, porque um pedia ajuda, outro pedia ajuda. Orientei ele a guardar no banco, mas ele não tinha conta. Então ele me pediu para guardar comigo. Eu não tinha como.o guardar”.

A solução encontrada por Ronaldo foi a de dar a Alcides uma caixa de sapatos e deixá-la numa prateleira no depósito da ONG. ” Toda semana a gente conferia junto, todo mês. Até que um dia apareceu um pedaço de chão. O cara queria cinco mil, Alcides tinha R$2.800,. Disse a ele, ofereça R$ 2.500″.

Após duas ou três tentativas, finalmente saiu negócio. Por R$ 2.800,00 , o menino que começou a tomar cachaça com 12 anos e ainda na adolescência chegou a ser aliciado pelo crime para trabalhar em plantações de maconha, tinha seu pedaço de chão. “Aí ele precisou construir. Disse a ele: comece tudo novamente, guarda” .

Novamente Alcides passou a guardar e quando tinha cerca de R$ 3 mil, Ronaldo novamente o orientou . “Começa a casa. O dinheiro é pouco, mas começa ela. Faz a fundação, uma coisinha aqui outra ali, disse a ele”, contou o pastor.

Alcides, que falava em colher lenha e revirar barro para erguer uma casa de taipa, começou então a fundação de uma residência de alvenaria. “Aí o pastor Ronaldo me ajudou, colocou um dinheirinho lá e eu terminei ela”, lembrou Alcides.

Casado há sete meses, Alcides saiu de um risco real de suicídio, para uma vida nova e cheia de esperança. Ronaldo, o pastor com quem trabalha, ainda está construindo a sua casa. Até pouco tempo, ele é Joana moravam num quarto dentro do Barracão da ONG que fundaram e trouxeram para as comunidades de Baixas.

Alcides, no fim da conversa , falou em nome de toda a comunidade . Disse que a vida mudou e melhorou para todos nos últimos anos. Investimentos de voluntários, sociedade civil organizada, trouxeram a comunidade de Baixas água, dignidade, perspectiva. “Antes das ONGs, da Joana, do pastor Ronaldo chegarem, ninguém olhava por nós aqui. Por Deus que ainda tinha o Bolsa Família pra ajudar. Porque o povo vivia de cortar lenha pra vender , as vezes o comprador bem pagava, dava calote. Tinha que sair de jegue pra buscar água, éramos nós por nós aqui. Hoje é tudo melhor, diferente. É difícil, a vida é essa, mas a gente vai seguindo”, concluiu.

A felicidade segundo o sertanejo

 

No Sítio de Baixas, um vilarejo no sertão de Moxotó, no interior de Pernambuco, perguntamos o que é felicidade. Sem chuva há cinco anos, mas lutando a cada dia por uma vida melhor, os moradores deste local, distante da realidade de milhões de brasileiros, contaram o que é ser feliz. Apreciem sem moderação

Onde os fracos não têm vez

José Cícero do Nascimento, 48 anos, pai de oito filhos, seis deles ainda vivos. Um homem do sertão, um sobrevivente. O Tota, como é conhecido, é um daqueles homens que fez o impossível para viver, criar os filhos, prover a família.

Dos tempos de falta de água, ele lembra das intermináveis caminhadas até às montanhas que cercam os sítios de Baixas, no sertão do Moxotó, no interior de Pernambuco. “Levava as cabras lá, nas Serra, soltava para comer e todo dia precisava levar água a elas”. Um trecho de mais de 15km de ida e outros 15km de volta. Tudo isso em meio a caatinga, subindo encostas, debaixo do Sol forte que castiga o sertão.

Antes, uma longa caminhada para buscar água, no único poço que havia na comunidade. “Era sofrido, muito. Tinha dias que eu falava que não voltava mais na Serra, só que no outro dia, tinha que fazer tudo de novo. Só tinha as cabras. Aqui não nascia nada. Tudo seco, sem água”.

Isso foi há mais de cinco anos, antes da chegada da ONG Pão é Vida na comunidade. Idealizada por Joana D’arc Henzel e seu marido Ronaldo Henzel, a Organização é a grande responsável pela mudança da história de Baixas e seus moradores. Só que isso é história para o Documentário que estou produzindo é também para textos futuros.

No entanto, o trabalho de Joana e Ronaldo, totalmente desvinculado de qualquer forma de governo ou sistema político trouxe para esse povo fatura e uma perspectiva de desenvolvimento em médio e longo prazo.

O seu Tota é um, entre tantos moradores locais, beneficiado com o trabalho da ONG que busca recursos com empresas e pessoas para perfurar poços, construir cisternas, desenvolver a criação de pomares, plantio de melancias, feijão, milho. Além disso, atua na saúde preventiva, saúde bucal, trazendo médicos e dentistas para atender a população. Com recursos próprios e de parceiros, eles construíram até mesmo um clínica odontológica em Baixas.

O projeto é uma realidade, dezenas de famílias hoje plantam, colhem, criam animais de pequeno porte e tem o elemento essencial da vida, água.

Graças ao trabalho de Joana e Ronaldo, aliado a garra e a vontade deste povo de crescer e prosperar, o deserto que um dia foi Baixas está se tornando um Oásis. O lugar onde os fracos não têm vez está sendo vencido pouco a pouco. O que mudou na vida do seu Tota e muita gente? Ele conta no vídeo abaixo .

Solidariedade venceu a mortalidade infantil em Baixas.

Hoje visitei a casa da do Cícera, que com seu filho Kaike, vive dias melhores e mais promissores em Baixas. Quando nasceu, Kaike esteve perto da morte. A exemplo de dezenas de crianças que não venceram a batalha pela vida, Kaike era mais uma vítima da desnutrição, da fome, da sede.

Até 2010, a realidade era cruel com as famílias de Baixas. Sem água, sem alimentação adequada (os programas de transferência de renda eram e são insuficientes), a comunidade lutava para sobreviver. Foram dias difíceis.

Graças a solidariedade de pessoas de Pernambuco e outros estados, que unidas passaram a buscar recursos e apoio com empresas e voluntários, essa página foi virada. O futuro de Baixas é bem mais promissor e a vida muito melhor.

Joana D’arc Henzel, que coordena a ONG PÃO É VIDA, me acompanhou na visita a Cícera e explicou como o engajamento e a solidariedade salvaram a vida de dezenas de crianças e de quebra mudou a realidade do vilarejo.

A filosofia de Cícero , um sertanejo


Cícero Jorge da Silva, 39 anos. Cabra nascido e criado no Sertão do Moxotó, nos sítios (comunidade) de Baixas, distrito do município de Inajá, Pernambuco. Cícero está a pouco mais de 300 km da capital do seu estado, Recife, mas nunca viu o mar. “Quase nunca saio daqui, a gente vive aqui, cuida das cabras, caça um bichinho pra cumê”.

Cícero é um profundo conhecedor do sertão e da história do cangaço. Admirador de Lampião, a quem faz referências de “defensor do povo sertanejo” com o máximo do seu respeito. Sabe histórias, conhece hábitos e trajetos usados pelo Rei do Cangaço e seu bando. Memórias passadas de geração para geração dentro da comunidade de Cícero.

Certeiro nas palavras, me contou muito sobre o modelo de vida de seu povo. Sua forma de ver as coisas, assim como de encarar o dia a dia me lembrou muito dos pensamentos filosóficos de Friedrich Nietzsche. “Na vida, o cabra precisa passar pelo sofrimento antes de ter as coisas. Precisa ser forte e enfrentar, se é tudo muito fácil, aí o cabra se perde”, me ensinava Cícero enquanto caminhavamos pela caatinga.

Nietzsche, em um de seus muitos ensaios, disse que para se tornar quem realmente é, o homem precisa passar pelo sofrimento. Só ele leva o homem a evolução. Nietzsche e Cícero concordam que o homem deve encarar a vida de frente e não usar de fugas para se elevar e crescer. “Rapaz, eu “num bebo não”. O cabra quando bebe conversa demais, fica violento, se perde todo, fala mentira, até acredita que é rico. Eu não tenho nada contra quem bebe, mas pra mim já não serve não”, opinou o sertanejo.

Nietzsche, por sua vez, costumava dizer que o álcool era o veneno das mentes e espíritos elevados. O homem evoluído. Segundo o filósofo alemão, apenas água bastava.

Falamos sobre tudo, muita coisa. Magro e esguio, Cícero me ensinava a como caminhar na areia. ” Tem que andar leve, não pode usar o peso do corpo não. O cabra não aguenta muito tempo de andar assim que nem o senhor tá andando”. Pensei em fazer um intensivo, andar ali na caatinga sendo leve não é fácil, ainda mais pra um cara de 105 quilos como eu.

Na subida entre os rochedos ele me orientava fazendo cálculos . “Não pode jogar todo o peso numa perna só, divide o corpo, metade em cada perna. No seu caso uns 60kg pra cada uma tá bom “. 😐😒

Um dos momentos mais legais, foi quando Cícero encostou num rochedo e começou a me explicar a mensagem que Deus tinha deixado naquela obra. (Ver vídeo do post). “Ele deixou seus dedos aqui pra lembrar a gente que tem que trabalhar pesado”.

O tempo que passei com Cícero hoje foi muito bom. Conheci o caminho de Lampião e seu bando, percorri uma parte importante da história do cangaço, da história do Nordeste e do Brasil. Aqui, em Baixas, Lampião passou pela última vez, em Pernambuco, antes de ser morto, no dia 28 de julho de 1939, em uma emboscada numa gruta as margens do Rio São Francisco, no município de Piranhas, já no estado de Alagoas, a pouco mais de 150 km do vilarejo onde Cícero mora.

Amanheci caminhando ao lado de um grande cidadão brasileiro que vê a felicidade no dia a dia, caçando, colhendo , criando suas cabras e como ele me disse “indo até a feira na cidade, quando tem um dinheirinho, para comprar uma coisinha de cumê”. Cícero é rico, muito mais que qualquer milionário. Sua riqueza está na sabedoria , maior que muito doutor que eu conheço, na sua fé, muito mais genuína é sincera que a maioria dos líderes religiosos e no seu caráter que deveria servir de exemplo aos nossos governantes e ao nosso povo.

A filosofia e a amizade de Cícero foi um grande presente que recebi hoje, do sertão do Moxotó, aqui em Pernambuco.

A educação que está mudando a vida no sertão

 

Aos poucos estou contando a história de Joana D’arc Henzel e Ronaldo Henzel aqui no sertão. É uma jornada linda, digna de pessoas que pensam muito além de seus umbigos.

O casal deixou um vida estável e confortável para viver na Comunidade de Baixas, no Sertão do Moxotó, interior de Pernambuco. O motivo? Ajudar no desenvolvimento de uma região que já foi considerada a mais miserável do país.

Hoje pela manhã, quando acordei e saí da minha casinha, vi de longe Ronaldo e Alcides virando massa de cimento debaixo do Sol. Cheguei e perguntei para que era. “É para fazer as prateleiras da Biblioteca”, me disse Ronaldo.

Perfurando poços, distribuindo alimentos, ajudando os moradores locais na criação de hortas e pomares, trabalhando a saúde preventiva, e investindo na educação das crianças de Baixas. Ronaldo e Joana seguem firmes em seu propósito de vida, o de mudar e melhorar a vida do povo de Baixas.

Chamei a Joana para gravar um vídeo explicando sobre a construção da Biblioteca e também um pouco do apoio pedagógico que eles dão as crianças da comunidade. Vale a pena assistir.

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